Com o objetivo de tornar o atendimento hospitalar mais humanizado e acessível aos povos indígenas, o HU (Hospital Universitário), da UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados), passou a contar, desde março, com intérpretes da língua guarani. A medida visa eliminar barreiras linguísticas que dificultam a comunicação entre pacientes indígenas e profissionais de saúde, garantindo mais segurança e qualidade na assistência pelo SUS (Sistema Único de Saúde).
Dois intérpretes, contratados por meio de processo licitatório, estão estrategicamente alocados na recepção da internação do Hospital. Eles auxiliam os indígenas desde o primeiro contato e realizam busca ativa nas unidades de internação, ambulatórios e na Casa da Gestante, para identificar pacientes indígenas que possam enfrentar dificuldades para se comunicar. Além disso, as equipes de saúde também podem acionar os profissionais por meio do ramal da recepção.
Para o superintendente do HU de Dourados, Hermeto Macario Amin Paschoalick, a contratação faz parte de uma série de ações do Hospital para implementar um melhor acolhimento e inclusão das pessoas indígenas, garantindo que os falantes do guarani tenham acesso a serviços de saúde de forma adequada e compreensível.
Maria Celina é uma das intérpretes do HU e trabalha há mais de 20 anos com saúde indígena. “Estou muito feliz em poder facilitar a comunicação entre os profissionais de saúde e os pacientes. Como intérprete e membro da etnia Kaiowá, meu trabalho consiste em garantir que as vozes sejam ouvidas e compreendidas”, comentou.
Comunicação sem barreiras e segurança do paciente
Para muitos pacientes indígenas, contar com um intérprete é importante para garantir uma comunicação eficaz durante o atendimento médico. Esse é o caso de Francimara Benites Ferreira, dona de casa de 24 anos, que veio da Aldeia Pirajuí, município de Paranhos, para viver um dos momentos mais especiais de sua vida: o nascimento de seu filho.
Em um ambiente diferente da sua realidade linguística e cultural, ela compartilhou sua experiência:
“Hasy voi kuri ñemongeta rojapo enfermeira ha médicos kuéra ndive. Oĩ ramo ko interpretes iporã ete voi. Oĩ hápe, ndaikatúi voi roñe’ẽ porã portuguespe; ombohasa ramo ñe’ẽ guaranípe, hesakãve voi oje’éva. Hembiapo kuéra ikatu eterei, ore pytyvõ heta voi”, omombe’u.
“Já tive algumas dificuldades em me comunicar com as enfermeiras e com os médicos. A presença dos intérpretes faz toda a diferença. Às vezes, não conseguimos nos expressar bem em português; com a tradução para o guarani, entendemos melhor o que está sendo dito. O trabalho deles é muito importante, nos ajuda bastante”, contou.
Os intérpretes facilitam a comunicação entre os profissionais de saúde e os pacientes indígenas. Eles garantem que informações sobre sintomas, diagnósticos e tratamentos sejam compreendidas corretamente. Essa mediação fortalece a confiança dos indígenas no atendimento. “Uma comunicação eficaz reduz o risco de mal-entendidos e aumenta a segurança do paciente. Os intérpretes ajudam os indígenas a compreenderem as orientações médicas, o uso de medicamentos e os cuidados pós-tratamento, melhorando a adesão e os resultados clínicos”, destacou Luciana Comunian, enfermeira especialista em Saúde Indígena e coordenadora do Comitê de Saúde Indígena do HU de Dourados.
Ações para inclusão e acolhimento
Desde 2022, o HU de Dourados mantém o Comitê de Saúde Indígena (CSIN), que promove encontros mensais para discutir desafios e implementar melhorias no atendimento aos indígenas. O grupo reúne profissionais de diferentes setores, como acadêmicos indígenas, colaboradores, residentes, docentes, egressos de residência, membros da administração hospitalar, lideranças indígenas, indigenistas, membros da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) e da Casa de Apoio à Saúde Indígena (CASAI), entre outros.
Nesse contexto, por meio das reuniões, foi identificado que a comunicação era uma das principais barreiras para o atendimento assistencial. A falta de compreensão dificultava tanto a qualidade da assistência quanto a confiança dos pacientes no tratamento. “Agora, os pacientes se sentem mais seguros ao entenderem o que está sendo dito. Isso melhora a relação entre os profissionais de saúde e os indígenas, possibilitando que o atendimento seja mais efetivo e respeitoso, levando em consideração as especificidades culturais e epidemiológicas, como estabelece a Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI)”, enfatizou.
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